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Como a TI ajudará o GRU Airport a alavancar novos negócios

O Aeroporto Internacional de Guarulhos (GRU Airport) passa por um processo intenso de transformação. Uma das principais portas de entrada e saída do Brasil foi arrematada pela Invepar por R$ 16,2 bilhões, em um movimento de privatização que data do início de 2012. Desde então, a concessionária toca esforços de modernização que impactaram profundamente iniciativas envolvendo adoção de tecnologias da informação.

Depois de pouco mais de dois anos e meio, Luiz Eduardo Ritzmann, começa a colher os frutos de um trabalho duro que primou por diminuir o gap tecnológico da estrutura em relação a outros grandes terminais aeroportuários do mundo.

O diretor de TI do GRU Airport conseguiu, nesse meio tempo, construir alicerces para começar a entregar recursos que automatizaram fluxos de passageiros, melhorara processos de importação e exportação de mercadorias e fortaleceram aspectos de gestão.

É mais ou menos nessa linha que o aeroporto se prepara para fazer a entrega de um projeto de implementação de um ERP da SAP. A solução contratada junto a Capgemini tem previsão de começar a rodar no final de abril. A expectativa é o sistema da alemã fortaleça ainda mais processos de negócio e sirvam de plataforma para um plano de transformar dados em inteligência que tragam novas fontes de receitas.

“Gosto muito de mostrar que se trata de um processo que construímos de baixo pra cima, do data center, passando pela camada de aplicações e gestão e agora chegando na busca por novos negócios”, comenta o CIO. Em entrevista exclusiva à Computerworld Brasil, Ritzmann conta como a estratégia de tecnologia do GRU Airport evoluiu ao longo dos últimos anos e o que enxerga no horizonte.

Computerworld Brasil – Como era o cenário de TI no aeroporto quando vocês entraram e começaram o projeto?

Luiz Eduardo Ritzmann – A Infraero operava muita coisa de forma centralizada a partir de Brasília. A primeira mudança grande de cenário foi o fato de que tivemos que constituir uma operação própria. Houve uma mudança significativa de cenário dado que somos dedicados a esse aeroproto. A segunda mudança que considero importante, e que tem mais a ver com minha responsabilidade, é que existia um gap tecnológico grande em relação aos principais aeroportos do mundo. Depois do primeiro processo de avaliação, passamos cerca de um ano e meio envolvidos em um esforço de transformação tecnológico muito forte. Não fizemos atualização de versão. Pulamos quase 20 anos de uma vez só para que passássemos a ter uma visão baseada em um tripé que contempla experiência do passageiro, eficiência operacional e segurança na operação. Foram esses pontos que nortearam a transformação.

Computerworld Brasil – E hoje em dia, como avalia o estágio de maturidade da TI do GRU Airport hoje? Quanto do que foi planejado já foi concluído?

Ritzmann – Fizemos tudo [o que foi planejado] em termos de tecnologia. Fomos até o fim. A visão é que, se você é um passageiro, desde o meio fio [quando descer do táxi] até a aeronave, não precisa falar com ninguém. Todos os fluxos e processos estão automatizados.

Computerworld Brasil – O que essa automatização demandou em termos de sistemas?

Ritzmann – Do ponto de vista de infraestrutura, construímos um data center tier-3 no Terminal 2 em 2013 e um backup no Terminal 3. Começamos de baixo para cima. Criamos uma capacidade de armazenamento e processamento de dados segura e com alta disponibilidade. Trabalhamos na mudança da tecnologia da rede – quando, chegamos existiam 13 mil pontos de rede e hoje são 34 mil. Fizemos isso com um salto tecnológico em processo e gestão. Subindo um pouco mais de nível, começamos num conceito de alguns softwares que chamo de infraestrutura, que são de controle unificado e centralizado de acesso lógico. Da mesma forma que montamos uma camada SOA [sigla para arquitetura orientada a serviços] que interconecta 34 aplicações que se falam entre si, fora entidades externas. Saímos lá do servidor e fomos subindo as aplicações. E hoje temos uma aplicação de gestão de todo processo aeroportuário, que permite gerir todos os recursos. Além disso, adotamos um software de gestão empresarial. Implantamos para tratar do back office. Afinal, Por ser um ente privado, temos todas as responsabilidades de uma empresa. Esses foram os grandes temas. O projeto do ERP será entregue no final de abril. Não foi uma iniciativa prioritária, pois focamos inicialmente em operações e cargas e no fluxo de passageiros.

Temos buscado sempre se apropriar do know how que o mercado já possui. Por exemplo, a solução de AMS (Airpor Managment System), buscamos um sistema de uma empresa suíça que está em 80 aeroportos do mundo. Trouxemos para cá, e sou bastante Xiita com relação a isso, com mínimo de customização possível. Até porque, se Londres ou Singapura opera com esse software, por que deveríamos operar diferente? Isso valeu tanto para o AMS quanto para outros sistemas. Vou me apropriar do entendimento do que esses aeroportos classificam como o mais eficiente e Existem padrões de mercado que podemos usar sem isso trazer mais custo para companhia.

Computerworld Brasil – E como tem sido a relação com os provedores, já que é um nicho que parece bastante específico?

Ritzmann – Existe uma indústria de TI parruda, porém de nicho. Buscamos empresas especializadas. Boa parte desses fornecedores não estava no Brasil, porque até recentemente era um mercado fechado. Resolvemos adotar uma postura de abraçar conceitos globais e valorizamos fornecedores com apetite para abrir mercado. A ideia é trazer o que se faz de melhor lá fora. Fomos precursores sem inventar a roda. Pensamos: existem excelentes aeroportos, vamos olhar o que fazem, como fazem e o quem fornece para eles e avaliar o que serve melhor para nosso cenário.

Computerworld Brasil – O que o GRU Airport contabiliza de ganhos com esse avanço tecnológico?

Ritzmann – São três formas de mensurar. A primeira é fluxo de passageiros, ou seja, quanto tempo uma pessoa leva para ir da porta do táxi, na frente do terminal, e chegar à aeronave. Medimos esse fluxo e está algo em torno de 20% mais rápido do que antes da tecnologia. Da mesma forma, temos hoje o que na indústria de aviação é chamado de ‘turnaround da aeronave’ [tempo que o avião leva entre estacionar e decolar], reduzidos para algo como 1h ou 1h30 contra 2h ou 2h15 de antes. Isso representa uma melhoria de 30%. O terceiro ponto é o tempo que leva um fluxo de importação ou exportação. Temos um caso interessante nesse sentido. Todos os sábados de manhã é feita exportação de 8 toneladas de mamão para a Alemanha. Como é um produto perecível, é preciso processar essa carga e colocar na aeronave o mais rápido possível. Hoje isso é feito em menos de uma hora. Também fazemos isso com flores, pescados…

Computerworld Brasil – Como isso evoluirá nos próximos anos dentro da organização?

Ritzmann – Estamos iniciando um processo de inteligência. Como capturo dado de tudo quanto é lado, e até então o foco foi usar essas informações para melhoria da operação e ganhos de eficiência, agora começaremos um segundo ciclo. A ideia é prover inteligência operacional. No fundo, estamos falando de BI [business intelligence]. A informação existe e recentemente criamos uma área de planejamento para usá-la de um ponto de vista mais estratégico.

Hoje consigo saber a demanda e oferta de origem e destinos de voos. Sabemos, por exemplo, que existe demanda maior do que oferta para oferta de voos entre Guarulhos e Londres (Inglaterra). Tem dois por dia, mas cabe um terceiro. Com essa informação em mãos, agora, posso buscar uma companhia aérea para fazer esse terceiro voo. É pegar esse dado e usa-lo para alavancar negócio. Sabemos também que existe demanda para um voo para Viena (Áustria). Nesse caso, estamos conversando com aeroporto de Viena, demonstrando que a demanda existe para, então em conjunto, buscarmos o parceiro.

Esse é um novo nível, e gosto muito de mostrar que se trata de um processo que construímos de baixo pra cima, do data center, passando pela camada de aplicações e gestão e agora chegando na busca por novos negócios.

Computerworld Brasil – Como é composto o time de TI?

Ritzmann – O departamento tem algo em torno de 45 pessoas, o que é um número pequeno para uma empresa do nosso tamanho. Mas estruturamos o plano para ter especialistas em suas funções. Fazemos mais gestão do que qualquer outra coisa. Por eu prover infraestrutura para toda comunidade do aeroporto, preciso oferecer um bom serviço. O fato é que a gestão disso é nossa, mas que executa é um grupo de empresas especialistas em cada tarefa.

Computerworld Brasil – Qual é o orçamento para tecnologia?

Ritzmann – Algo em torno de 8% do orçamento total de despesas do aeroporto. Ainda é um pouco alto e teremos que melhorar isso nos próximos três anos. O ideal é chegar a 5% do custo da operação, que é o padrão em grandes aeroportos do mundo.

Computerworld Brasil – Quais demandas você gostaria de atender hoje?

Ritzmann – Não existe praticamente nada mais tecnológico do que um avião. Estamos, por exemplo, testando em quatro pontos do aeroporto maneiras de fazer com que aeronaves estacionem nos portões sem ajuda humana e com segurança. Outro tema que está em teste toca voos de longa distância. Quando um cara fecha a porta do avião nos Estados Unidos, poderia me enviar tudo que tem naquela aeronave para que eu alimente sistemas e prepare minha operação com 10 horas de antecedência. O desafio é que isso pede troca de informações com muitos players e é preciso integrar isso. Contudo, é algo que aceleraria vários processos, como o migratório, por exemplo.

 

Fonte: Computeworld